Artigos de Opinião

“Ser médico e colocar em prática o amor ao próximo”
Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica


Atravessamos uma semana em que a classe médica ficou em polvorosa. O centro da polêmica foi (e continua sendo) a Resolução 2.227/2018, do Conselho Federal de Medicina, que define e disciplina a telemedicina como forma de assistência mediada por tecnologias. 

Entre outras novidades, a normativa, prevista para entrar em vigor daqui três meses, estabelece que os médicos brasileiros poderão realizar consultas online, assim como telecirurgias e telediagnóstico, entre outras formas de assistência à distância. Enfim, abre uma lacuna perigosa, já que é bem genérica e ampla. 

Nos dias de hoje, fala-se muito em Medicina baseada em evidência. Porém, esse conceito amplo embute também os significados conquistados em virtude da competência e da experiência. Nada substitui o que se aprende à beira do leito.

A Medicina é a profissão da entrega, do amor. Só aprende e só a exerce com dignidade aquele que realmente vive o problema e as conquistas de seus pacientes.

Não devemos esquecer que o médico tem uma participação social muito intensa na construção da cidadania. Portanto é preciso que nas escolas a atenção seja voltada para esse aspecto que freqüentemente passa despercebido.

A educação no Brasil perdeu, de bons tempos para cá, a interrelação com a boa formação, tornando-se simplesmente um negócio para a maioria dos donos de escolas e faculdades. O reflexo da mercantilização é sentido em várias etapas dos estudos, com desdobramentos importantes em toda a sociedade. 

No Ensino Fundamental, I ou II, muitas crianças passam de ano mal sabendo ler ou formular uma oração com sujeito, verbo e predicado. Assim, começam a ruir sonhos de milhões de brasileiros que, amanhã, provavelmente não terão boas oportunidades no mercado de trabalho e comporão a parcela mais vulnerável. 

Fechamos 2018 e o Brasil, outra vez, manteve-se estagnado no tempo econômica e socialmente. Os trens da história seguem passando, um atrás do outro, e lamentavelmente parece que nunca estamos na estação para embarcar nas melhores oportunidades. 

Dizer que nosso crescimento foi pífio é patinar no óbvio. Faz anos que o Produto Interno Bruto (PIB) não avança e são necessários malabarismos fiscais para apresentar um balanço fiscal que não seja deficitário. Quanto mais vulneráveis são nossos cidadãos, mais acusam os golpes da crise. Desemprego, custo de vida, insegurança, falta de perspectiva. Enfim, um presente penoso apontando para um futuro talvez pior.

Lamentavelmente o Brasil é como um cachorro correndo atrás do próprio rabo quando o assunto são as políticas de saúde.  Basta olharmos ao longo da história para constatar que, por décadas e mais décadas, a mídia, os médicos, os profissionais de saúde e os pacientes estão sempre debatendo os mesmos problemas, sem, contudo, vencê-los nunca. 

Há ao menos cinquenta anos fala-se da abertura indiscriminada de escolas médicas sem infraestrutura adequada para uma boa formação. Pois a situação só vem piorando. Hoje, já temos 331, com 34 mil vagas no primeiro ano. A maior parte delas sem hospital-escola para treinamento, sem preceptores, com corpo docente questionável e grade curricular inconsistente. 

Dias atrás o Brasil concluiu um dos mais tensos processos eleitorais de sua história. Em clima de rivalidade acirrada, com demonstrações inaceitáveis de ódio e falsas acusações, definimos enfim os novos governadores e o presidente da República para o período 2019-2022. 

Mesmo a despeito dos complicadores já citados, mais uma vez quem sai ganhando é a Democracia. O País sai das urnas mais maduro, com instituições fortalecidas e a vontade da ampla maioria consagrada. Assim, agora é o momento de virar a página e sair em busca de nossos sonhos por tempos melhores. 

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