Artigos de Opinião

A saúde da população está realmente relegada ao segundo plano no Brasil. Um exemplo disso é a descabida ideia de criar planos supostamente populares, com cobertura limitada, em rota de colisão com as garantias obtidas pelos pacientes na Lei 9656/98. 

A sugestão foi apresentada há alguns meses por representações de operadoras de saúde em reunião no Ministério da Saúde, com o aparente pretexto de discutir a elaboração de planos mais acessíveis, com redução de até 25% dos preços. Por trás dela, esconde-se a lógica cruel do lucro fácil, sem contrapartida social.  

Dia do Médico, 18 de outubro, uma data de reflexão.  Em um mundo que consome novidades tecnológicas e faz delas muletas para distintas ações, cabe parar e pensar onde foi parar o humanismo. 

No caso de medicina, a humanização das relações é simplesmente primordial. O elo entre médico e paciente deve ser necessariamente entretecido pela empatia, a cumplicidade, o respeito, o cuidado. 

Certo é que a realidade não é bem essa. Hoje, muitos doutores nem se dão ao trabalho de levantar a cabeça e olhar nos olhos de seus pacientes. A anamnese parece ter perdido a importância. O toque, a conversa, o escutar vão aos poucos sendo descartados em clínicas, hospitais e consultórios como objetos fora de moda. Inapelavelmente vencidos pelo tempo. 

Não. Não pode ser assim. Os exames precisam ser solicitados com base no diagnóstico. As imagens esfriam a relação médico paciente e encarecem a medicina.

A medicina ideal não pode em momento algum perder sua ternura. O paciente não pode se transformar em um simples número de apartamento, em uma carteirinha de plano de saúde, em uma doença. 


O primeiro artigo do Código de Ética Médica praticamente sintetiza o que é a medicina. Trata-se de uma profissão a serviço da saúde do ser humano, da coletividade, devendo ser exercida sem discriminação de qualquer natureza. 

A medicina se relaciona intrinsecamente com o humanismo. Para exercê-la com grandeza, é fundamental ter princípios, respeito e amor ao próximo, além de honradez. Enfim, é necessário espírito altivo e postura ética. 

Lógico que devemos ser maleáveis às transformações do meio para garantir sincronicidade entre o pensamento dos cidadãos e a prática médica. Avanços tecnológicos e mudanças de comportamento mexem cada vez mais rapidamente com nossa forma de ver o mundo. Os valores, ainda bem, não são estáticos, exigindo reflexão e revisão constante. 

No decorrer da história da humanidade, a morte sempre foi interpretada pelo homem de acordo com princípios ortodoxos, sejam eles culturais ou religiosos. O debate se manteve engessado em conceitos questionáveis e, mais ainda, em preconceitos. Essa discussão sobre a terminalidade da vida sempre promoveu polêmicas e questionamentos, porém, poucos se aprofundaram de fato. No campo de medicina, da saúde, esse debate deve necessariamente começar pela precisa definição ética e jurídica do que é eutanásia, ortotanásia e distanásia.

A eutanásia é o ato do provocar a morte de outra pessoa que está em sofrimento por conta de alguma doença grave, conduta considerada ilegal e antiética em nosso país. Já a ortotanásia (que vem do grego e significa “morte digna”) é a decisão de retirar, sem causar sofrimento, equipamento ou medicações que servem para prolongar a vida de um doente terminal sem esperança. Por fim, a distanásia é compreendida como o prolongamento da vida de modo artificial, sem perspectiva de cura ou melhora.

Há hoje entre muitos gestores um discurso enviesado e perigoso. Fala-se em graduar médicos para a atenção básica, ignorando completamente que a medicina é uma ciência complexa. Que o doente é um ser humano e está sujeito a males que vão bem além das gripes e dores de barriga. Do ponto de vista da organização do sistema de assistência, a atenção básica, também conhecida como primária, nada mais é do que a porta de entrada do paciente. É onde ele deve receber informações sobre prevenção, além de cuidados para doenças mais simples. Também é a peneira que filtrará os casos corriqueiros da alta complexidade, encaminhando os últimos para a rede secundária e terciária, dependendo da situação. É, enfim, uma solução racional.

Já sob a ótica da assistência ao ser humano, tal compartilhamento não cabe. O profissional da medicina tem de estar preparado para atender um doente em todas as suas necessidades. Para tanto, precisa de uma formação integral e de qualidade, sem falar que primordialmente deve gostar de gente. Essa, aliás, é a chave da boa medicina. Jamais será bom médico aquele que vê o paciente como uma fonte de lucro, um simples número de apartamento de hospital ou um mero usuário do plano de saúde que o remunera mal. 

É de se lamentar que até hoje vários médicos ainda não pautem sua atuação no humanismo. A situação, aliás, só tem piorado, pois muitos, por absoluta falta de preparação acadêmica, abusam dos avanços tecnológicos, solicitam exames desnecessários e em excesso, sem falar que maculam a própria autonomia (e a imagem da classe) em acordos escusos com laboratórios. Assim, os sistemas de saúde, público e suplementar, veem vazar pelo ralo investimentos importantes. Ao fechar as contas, acaba faltando dinheiro para resolver questões urgentes da assistência em saúde, especialmente em relação às populações mais vulneráveis. 

Em pleno século XXI, há os que olhem somente para doença, esquecendo-se de que a razão da medicina é o doente, o ser humano. Quase já dá para contar nos dedos os profissionais que realizam uma consulta completa e competente, abrangendo a coleta do histórico do paciente, exame clínico completo, indicação detalhada de exames complementares, se preciso, e orientações terapêuticas, por exemplo. 

RUA BOTUCATU, 572 - CJ. 112 - SĂO PAULO - SP - CEP 04023-061
TEL (11) 5908-8385 / E-MAIL: SBCM@SBCM.ORG.BR